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Eu não sou da sua rua



Eu não sou da sua rua,

Eu não sou o seu vizinho,

Eu moro muito longe, sozinho.


Estou aqui de passagem.

Eu não sou da sua rua,

Eu não falo a sua língua,

Minha vida é diferente da sua.

Estou aqui de passagem.


Esse mundo não é meu,

Esse mundo não é seu.


Arnaldo Antunes / Branco Mello



Em um período relativamente recente, há três anos, o escritor, psicanalista Contardo Calligaris nos chamava a atenção sobre o tema “isolamento social”. Afirmava que "a falta de interesse pelo mundo e pelos outros é o que pode nos acontecer de pior" enquanto sociedade e seres sociais que somos.



Certamente não se trata de um tema desconhecido na História Humana. Presente em diversas épocas e culturas, mas que, no entanto, manifesta-se atualmente na sociedade contemporânea. Paradoxalmente, muitos a reconhecem como uma medida necessária para enfrentar a questão sanitária que assola todo o planeta. Por outro lado, muitos a negam como um imperativo para que a sociedade não entre em colapso econômico. Quais os conceitos que empregamos nesta observação a fim de caracterizar e compreender o isolamento? O que entendemos como desenvolvimento? Como aspectos físico, social, anímico, espiritual se relacionam? Vida em plenitude, necessita de condições para germinar, se desenvolver, passar por transformações.


Tudo isso nos remete ao interesse pelos outros, cuidado pelos outros e interdependência, não a separação ou isolamento. Rudolf Steiner reuniu fundamentos filosóficos com intuito de compreender o ser humano e sua finalidade. Na era atual em que vivemos, na Era da Consciência, nos deparamos com a necessidade premente de desenvolver o individualismo ético, como um processo permanente de formação humana, permanecendo-se vinculado ao universal.


Precisamos vivenciar uma situação extrema, o estado de isolamento que nos obrigou a mudar planos e a nossa organização de vida, para que pudéssemos ter a evidência absoluta da interconexão entre todos. Precisamos experimentar a solidão para sentirmos a importância de todas as relações que mantemos. Precisamos estar em silencio para sentir as dores do outro, para além das nossas próprias dores. A crise que expos a falência de uma ordem, ou desordem social pautada pelo materialismo e pelo egoísmo, que trata os seres humanos como objetos, em vez de reconhecê-los como parte da mesma trama de vida à qual estamos entretecidos.


A chave para a compreensão da situação que enfrentamos atualmente, e para a construção de um futuro com vida em plenitude, passa indubitavelmente pelo reconhecimento do outro, pelo diálogo, e que assumamos viver permanentemente em transformação. Afinal, estamos todos aqui de passagem.


José Vicente Teixeira




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