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Pirandello, pandemia e dragões


Afresco de Candido Portinari - São Jorge e o dragão

https://turismo.brodowski.sp.gov.br/museu-casa-de-portinari


- O que você está fazendo? – perguntou minha mulher ao me ver demorar estranhamente diante do espelho.

- Nada – respondi -, só estou olhando aqui, dentro do meu nariz, esta narina. Quando aperto, sinto uma dorzinha.

Minha mulher sorriu e disse:

- Pensei que estivesse olhando para que lado ele cai.

Virei-me para ela como um cachorro a quem tivessem pisado o rabo.

- Cai? O meu nariz?

E minha mulher respondeu, placidamente:

- Claro, querido. Repare bem: ele cai para a direita.


Pirandello, Luigi – Um, nenhum, cem mil – São Paulo: Cosac Naif, 4ª ed, 2015


Gosto muito do livro Um, nenhum, cem mil de Luigi Pirandello e na pandemia acabei retomando algumas reflexões feitas em 2016, quando postei o vídeo, conforme o link abaixo:



O livro conta a trajetória de Gengê, o qual, após a cena descrita, passa a questionar quem é esse Eu, que está à vista de todos, e, no entanto, é invisível para si próprio. Quem é esse estranho? Como suportá-lo? Como não o ver e conhecer? Como a imagem que tenho de mim não é a mesma que os outros vêm?


O mesmo personagem diz mais adiante:


Assim começou o meu mal. Aquele mal que em breve me reduziria a condições de espírito e de corpo tão miseráveis e desesperadoras que certamente me teriam matado ou enlouquecido – caso eu não encontrasse nele mesmo (como direi em seguida) o remédio para a minha cura.


As questões levantadas no livro continuam a fazer sentido ainda hoje, quando, após o prolongado período de isolamento causado pela pandemia, tudo está, pouco a pouco, voltando ao "normal". Um normal no qual a cada momento somos chamados a rever escolhas, certezas, comportamentos e ações.


Desde os tempos antigos o homem se vê confrontado com o conhece-te a ti mesmo, uma longa jornada rumo ao desenvolvimento como ser humano. Quanto conhecemos a respeito de nós mesmos? Temos coragem para enfrentar o nosso dragão interno, nosso lado B, nossa sombra? Aceitar a presença desse estranho, mas mantendo-o sob vigilância, procurando achar o caminho?


Esse profundo, intricado e labiríntico exercício pode ser apoiado pelo olhar para a própria biografia, em busca das respostas que moram em nós mesmos, no entanto só ficam visíveis a partir da convivência com o outro, na relação Eu e Tu. Assim, por meio dessa interação, percebemos as habilidades, potenciais e sucessos. É também o outro que sinaliza os limites, fraquezas e vulnerabilidades.

O olhar para os fatos biográficos pode nos dar pistas para viver o presente de forma mais plena e consciente. E desenhar um futuro que almejamos, a partir de passos e ações concretas no aqui e agora.




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